AtivismoCOVID-19NotíciasIlustração_Ativistas e Covid-19

Para marcar o lançamento da versão em português do livro “Onde Começa a Mudança”, a Oficina Global (OG) promoveu ontem, 04 de março, um debate online sobre os desafios que a pandemia global impõe aos ativistas da mudança social. O debate, sob a moderação do Professor do ISEG-ULisboa, Luís Mah, contou com a participação do autor do livro, o Professor de Desenvolvimento Internacional da London School of Economics (LSE) e Conselheiro da Oxfam, Duncan Green, e da Presidente da Forus International e co-Diretora da Abong, Iara Pietricovsky, além da Presidente do ISEG, Clara Raposo. 


Desde a sua primeira publicação pela Oxfam, em 2016, com o título “How Change Happens” (original em inglês), o livro de Duncan Green já foi traduzido para o chinês, espanhol e árabe e, por meio de uma parceria entre a OG, o ISEG e a Oxfam, está agora disponível também em português. Para Green, o sucesso da obra se deve à perenidade do tema. “A mudança continua, o tema não fica velho nunca”, afirma. 


Em tempos de COVID-19 o debate em torno do ativismo e da mudança social é ainda mais urgente. Green destaca a importância da atuação de ativistas e organizações em conjunturas críticas: “momentos de ameaça e de crise são importantíssimos em termos de formar o ambiente para a mudança”. Pietricovsky concorda: “o ativismo está salvando vidas. Na vida real, os grupos vulneráveis estão a mil por hora. A mudança também vem de lugares inesperados”. 

Luís Mah, Iara Pietricovsky, Clara Raposo e Duncan Green


Green explica que a mudança social acontece de maneira desordenada, por meio de sistemas complexos: “projetos de cooperação são, normalmente, lineares, mas a mudança não acontece assim”. Para ele, as transformações ocorrem de modos distintos em diferentes contextos, o que dificulta o apontamento de causas específicas: “[mudanças] são processos de renegociação, por isso é imprescindível para qualquer ativista identificar os pontos de poder dentro de uma instituição”. 


“O debate sobre o ativismo, suas formas e suas estratégias dentro de um sistema complexo, sob a ótica do poder, é uma abordagem fundamental”, afirma Pietricovsky. “É uma ótica que nos provoca a pensar sobre a realidade e como mudá-la, uma vez que nós pretendemos ser agentes de mudança”, completa. Pietricovsky, que se define como uma ativista da sociedade civil brasileira, ressalta ainda a importância de disponibilizar conhecimento sobre ativismo e mudança social em língua portuguesa: “os países de língua portuguesa têm muito a adicionar, suas experiências sobre o que significa o ativismo e como se chega à mudança”. 

“A conciliação é o mal que estrutura o espaço político brasileiro” – Iara Pietricovsky 


Pietricovsky defende que em países com um passado colonial e um presente marcado por inúmeras desigualdades, como é o caso do Brasil, a análise social precisa ser feita sob a “ótica do poder”. A ativista critica o que ela define como uma “incorporação dos movimentos sociais de esquerda às estruturas de poder”, fazendo referência aos quase 14 anos em que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve à frente do governo brasileiro (2003-2016). “É preciso construir alianças, mas como manter o nosso ativismo independente, capaz de promover mudanças estruturais?”, questiona Pietricovsky. 


Green explica que os ativistas precisam entender as diferentes correntes políticas, identificar aliados e inimigos e traçar estratégias para agir em contextos variados. “Normalmente, há aliados em toda parte, temos que modificar a linguagem e a estratégia, mas sempre há aliados”, afirma. Pietricovsky concorda: “a radicalização excessiva não constrói, não produz as convergências necessárias”. 

“É preciso melhorar as exigências nas práticas de produção e de consumo de bens e serviços” – Clara Raposo 


Em relação às parcerias com o setor privado, Duncan acredita serem essenciais para maximizar o alcance as agendas de mudança: “É fundamental construir alianças com grupos dispostos a realizar mudanças, mesmo que pontuais, e com poder de influenciar outros grupos”. Para Raposo, as grandes empresas têm um papel importante nas mudanças sociais, mas é preciso melhor a regulação e coordenar os esforços: “não devemos substituir a regulação das empresas e deixar nas mãos dos gestores e dos proprietários a decisão do que é bom para todos”. “É preciso haver um valor democrático muito forte para regular todos esses players de maneira que tudo isso funcione”, finaliza Raposo. 


Se interessou pelo tema? O livro “Onde Começa a Mudança” já está disponível gratuitamente no site da Oficina Global. Clique aqui para fazer o download

Acesse a gravação completa do debate no nosso canal no Youtube.

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