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Este texto é uma tradução da versão em inglês publicada pelo blogue Green European Journal, originalmente publicado em holandês por De Helling. A tradução em português é de responsabilidade da Oficina Global. Créditos da imagem em destaque: Clem Onojeghuo via Pexels.


A ideia de que os rótulos de comércio justo mudarão a economia mundial é questionável. Muitas vezes, os principais beneficiários não são os agricultores do Sul Global, mas os consumidores ocidentais dispostos a pagar pela satisfação do consumo ético. O movimento do comércio justo começou com ambições muito maiores de transformar as trocas cotidianas em oportunidades para a educação política e a solidariedade internacional. Ellen Mangnus traça a história do comércio justo na Holanda para perguntar o que isso significa hoje.


“Não ao Açúcar de Beterraba, Compre Açúcar de Cana, Ajude e negocie”. Este era o slogan das faixas que estavam a ser levadas em direção a Binnenhof, o coração do governo holandês em Haia. Fotos das manifestações mostram homens e mulheres em casacos grossos. O céu estava nublado e fazia muito frio, mas os ativistas estavam radiantes.


Naquele dia, 3 de dezembro de 1968, eles ofereceram ao primeiro-ministro Joop den Uyl um coração feito de cana-de-açúcar. Foi o primeiro passo. Os olhos deste meu grande amigo, Hans Beerends, brilhavam enquanto ele contava a história dos “wereldwinkels” holandeses (lojas de comércio justo). Ele me mostrou as fotos do seu álbum. Nenhum dos ativistas jamais havia saído da Europa; as imagens de lugares distantes e os pequenos agricultores de cana chegavam a eles apenas em preto e branco. Mas todos eles tinham conhecido a fome.


No inverno de 1944, na esperança de conseguir alimentar seus estômagos vazios, muitos holandeses quebraram as unhas cavando o solo congelado do jardim em busca de tubérculos e bolbos. Naquele ano de fome já não sonhavam com o futuro; a imaginação não se estendia além de imagens de pratos de almôndegas com molho. Uma vez por mês, comiam batatas com cascas doadas pela fundação HOKAM (Ajude Nossos Filhos A Receber Refeições).


Assim, aprenderam desde cedo que a fome pode levar as pessoas à loucura e que o estômago vazio torna a pessoa suscetível a uma sandes/sanduíche recheada de maldade. No final daquele ano da fome, eles também aprenderam que a fome foi feita pelo homem: o documento de libertação tinha acabado de ser assinado quando sacos de farinha de ervilha e latas de biscoitos começaram a cair do céu. Um presente dos responsáveis pela libertação. Ao fim de uma semana, todos na Holanda tinham comida adequada outra vez. De repente ficou claro para os ativistas – que eram crianças na época – que a fome era uma estratégia de guerra e que os humanos criavam a fome para eliminar seus inimigos, para afirmar seu poder.


O ativista holandês Piet Reckman desvendou o mistério. Ele descreveu em seu livro Riet, het verhaal van de suiker (Cana, a História do Açúcar) como milhares de agricultores da América do Sul estavam morrendo de fome porque a Europa recusou-se a receber a cana-de-açúcar deles. Os países europeus cobravam tarifas de importação e forneciam subsídios abundantes aos seus agricultores que cultivavam beterraba sacarina; os agricultores brasileiros nunca poderiam competir com isso. A pobreza dos agricultores em todo o mundo foi resultado de uma tentativa deliberada do Ocidente de boicotar produtos baratos do então chamado Terceiro Mundo para sustentar sua própria indústria e agricultura.


Reckman entrou em ação: começou a vender cana-de-açúcar. As pessoas que eram contra essa exploração compravam açúcar de cana em vez de açúcar de beterraba. O açúcar tornou-se assim um meio de luta política.


Mais que açúcar


Logo se tornou mais do que açúcar: tarifas de importação também foram cobradas sobre o café, o chá, o cacau e o tabaco. Os ativistas montaram lojas onde vendiam estes produtos com um valor acrescentado. Eles ofereciam os bens a cidadãos comuns em lugares abandonados, sótãos e prédios públicos. Mas as lojas eram mais do que simples pontos de venda: eram espaços para ativistas se reunirem, planear ações políticas e recrutar novos combatentes.


O que eles vendiam não era apenas um produto justo, mas um manifesto. O pacote de açúcar ou café foi o começo; o que se seguiu foi uma compreensão da história sobre as barreiras discriminatórias à importação e os subsídios agrícolas. Os clientes não saíam da loja sem serem informados sobre a derrubada das florestas tropicais por grandes exportadores de soja e o deslocamento de pessoas e animais para a construção de plantações de banana. Os clientes nunca mais seriam capazes de misturar açúcar de beterraba em seu chá sem pensar no sofrimento que isso representava em outros lugares.


“De repente ficou claro para os ativistas […] que a fome era uma estratégia de guerra […]”


Em resumo, o consumo era usado para lembrar ao cidadão desavisado que a fome era consequência de escolhas políticas. O objetivo dos ativistas era gerar apoio para a abolição das barreiras tarifárias e fazer com que os consumidores fizessem parte da luta por um sistema comercial mais justo. O dinheiro extra pago pelos produtos solidários não se destinava aos agricultores; era doado a grupos ativistas que lutavam por justiça política no terreno. Os ativistas mantinham laços estreitos com o Movimento Popular de Libertação de Angola, movimentos estudantis no Brasil e o Movimento de Esquerda Revolucionária no Chile.


Não há mais tempo


Mas um ponto de viragem ocorreu em algum momento na década de 1980. Não na situação desses agricultores; eles ainda continuavam a ser explorados. Nem nas relações comerciais desiguais; o Ocidente continuou a construir suas barreiras tarifárias. Não, tinha a ver com os consumidores; já não tinham tempo para as longas histórias dos vendedores do comércio justo. Além disso, eles queriam que os florins gastos tivessem um impacto direto na vida dos agricultores. De onde surgiu isso? Os consumidores já não acreditavam no poder dos movimentos de libertação? Ou eles perderam a esperança de que um sistema de comércio justo surgiria através da política? O filósofo francês Jean-François Lyotard identificou-a como o fim das “grandes narrativas”. Em vez de apenas uma história abrangente a orientar, Lyotard viu um mosaico de micro-histórias, pequenas visões sobre a existência humana. As pessoas não acreditavam mais no progresso através da luta de classes. O estado de bem-estar social estava sendo rapidamente desmantelado, colocando montanhas de responsabilidade no prato de todos. Os cidadãos recorreram a mudanças que estavam ao seu alcance.


“O ativismo tornou-se parte do sistema contra o qual lutou. O comércio justo foi reduzido a um preço melhor […]”


Em 1988, foi lançado o selo de qualidade Max Havelaar. Esse selo permitiu que o café fosse caracterizado como “justo” e possibilitou que os supermercados comprassem café de comércio justo. Este café justo atingiu um grande público; este foi o primeiro passo na transformação das lojas de comércio justo de Weldwinkel. Nos anos seguintes, Hans Beerends viu com pesar como a política mudou de “vendas como meio” para “vendas máximas como meta”. O ativismo tornou-se parte do sistema contra o qual sempre lutou. O comércio justo foi reduzido a um preço melhor, e a história das relações comerciais desleais foi simplificada para as anedotas que os clientes queriam ouvir: sobre como as vendas dos produtos do comércio justo ajudaram o agricultor a montar um negócio ou a pagar os estudos de seus filhos. Agricultores e artesãos estrangeiros estavam novamente a serviço do consumidor ocidental.


Capitalismo cultural


O filósofo esloveno Slavoj Žižek chama isso de capitalismo cultural: a mistura de fazer o bem e capitalismo. A caridade já não é simplesmente colocar dinheiro em boas causas; hoje, fazer o bem pode ser feito enquanto estás a consumir. Compramos sapatos de uma marca que doa um segundo par para uma criança que não tem sapatos e bebemos café que também gera dinheiro para o agricultor. Isso é inútil, argumenta Žižek: nada mudará se as raízes desse sistema completamente podre não forem removidas. Segundo Žižek, o consumidor se beneficia ao sentir-se bem com a ilusão de contribuir para um mundo melhor. Porém, diz ele, o oposto de um mundo melhor é o resultado, pois o sistema capitalista explorador só se perpetua. Isso pode ser comparado aos proprietários de escravos que cuidavam bem de seus escravos em vez de conceder-lhes direitos. Dessa forma, os senhores de escravos impediam principalmente que os escravos oprimidos percebessem a injustiça de sua própria situação. Para um progresso real, diz Žižek, devemos reestruturar a sociedade de tal forma que as escolhas políticas não levem à fome e à pobreza. Embora ele nos dê poucas orientações sobre como fazer isso, ele tem certeza de que o “consumo justo” só vai atrapalhar.


“O Comércio Justo transformou-se em sentir-se bem”. Copiei este título poderoso de um ensaio do ex-ministro Jan Pronk, em que descreve o que ele acha que o comércio justo realmente significa. “O comércio não é só o que importamos, mas também o que exportamos”, escreveu. O comércio justo exige o fim das exportações de armas para os países em desenvolvimento, do envio global de resíduos contaminados e do despejo de produtos agrícolas europeus nos mercados africanos.


Talvez o comércio justo exija mais frequência em “não consumir” do que um consumo sustentável. Segundo Pronk, comércio justo também significa dizer “não” a tudo o que está em conflito com ele. Por exemplo, combater a pesca de navios de alta tecnologia ocidentais que deslocam a pesca local ao longo da costa africana, reduzir as emissões de gases de efeito estufa que afetam os sistemas vivos em outros países ou mesmo lutar contra a importação de diamantes de sangue e coltan de minas onde ainda existe trabalho escravo. Para os Países Baixos, comércio justo significa, portanto, também deixar de atuar como paraíso fiscal. Mas o mais importante: o comércio justo tem a ver com relações de poder. Trata-se de propriedade intelectual e acesso à terra, água, energia e recursos naturais.


Como eles sabiam nos “wereldwinkels”, o comércio justo é uma longa história. Comércio justo requer luta política.


Este texto é uma tradução da versão publicada pelo blogue Green European Journal.

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